Pare um pouco e se lembre da sensação. Aquela sobrancelha franzida, aquele dedo apontado, o peito estufado. O frenesi era delicioso. Chegávamos até a cuspir. Era simplesmente fantástico soltar um “vai tomar no cú” no meio de uma discussão, e depois acompanhar a reação e a réplica do ofendido.
Hoje, a sobrancelha somente acompanha os olhos ao seguir a setinha, o dedo apenas pressiona letra por letra, o peito se mantém estufado somente pelo apoio da cadeira em suas costas. Cuspir? Só se for para pegar uma flanelinha e limpar a tela logo em seguida. O emocionante palavrão acima foi substituído por um simples, mero e sem-graça “vtnc”.
E o mesmo ocorreu com “fdp”, “vsf”, “kraio” e assim por diante. A linguagem virtual, que tudo abrevia e condensa, diminuiu e condensou a maior dádiva do ser humano: a capacidade de xingar (O Word mandou eu substituir “xingar” por “falar mal”, mas em protesto eu não o farei) o seu próximo.
Alguns acreditavam que o diferencial do homem era a presença do polegar. Outros, a capacidade de raciocínio. Os mais espertos sabem que é a possibilidade de xingar. Imagine quantas guerras teriam sido evitadas com o exercício deste instrumento mágico. Segundo relatos, Hitler era extremamente educado. Se ele tivesse xingado quem não gostava, talvez não os colocasse cruelmente em câmaras de gás. Se os americanos tivessem olhado para o céu e gritado “seu japa filho-da-puta”, certamente não haveria o episódio de Hiroshima (talvez se os japoneses fizessem o mesmo antes, não haveria nem Pearl Harbor). Talvez o prazer de xingar diminua a necessidade de brigar.
E a siglanização acaba justamente com esta sensação prazerosa provocada pelo xingamento. O pior é que uma vez siglanizada, a palavra vai perdendo seu sentido. ONU, CPF, CIC, IPTU, RG, ONG, não são mais nada além de siglas. Ninguém lembra que um dia foram palavras. Ninguém sabe que um dia foram assassinadas por alguém que quis economizar tempo.
Em breve, a emoção do seu palavrão diminuirá. Em um ato de explosão logo virá um grito de “Veteenecê”... Coisa mais sem graça. Aquele seu amigo não terá mais a mãe homenageada, mas sim ficará bravo apenas com um “efedepê”... Coisa mais triste não há.
O orgasmo mental provocado pela proliferação de um palavrão está desaparecendo.
Com certeza, o texto se alongou demais. É bem provável que você já esteja cansado de tanta baboseira e pegando ódio de estar perdendo tempo aqui. Se estiver acontecendo tudo isto, consegui o que queria, pois, sei que, dentro de alguns segundos, você soltará um prazeroso e sonoro “vai tomar no cú, seu filho da puta” e não deixará a siglanização extinguir um bem passado de geração a geração: o palavrão nosso de cada dia.
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