terça-feira, 16 de setembro de 2008

Naquele Momento

-Mamãe.
Naquele momento, os olhos dela umedeceram. Ela esqueceu que fora criança e que reprovou a sexta série. Esqueceu também do primeiro baile escondida do pai, do primeiro namoradinho do colégio. Não se lembrava sequer que era a Miss de sua pequena cidade.
Naquele momento, esquecera todas as loucuras de sua adolescência. Não passava pela sua hipnótica memória sequer que um dia passou por essa fase tão complicada. Primeiro soutien? Era o mesmo que pedir para que ela rememorasse o rosto de todas as pessoas que conheceu na vida. Na verdade, ela não lembrava de ninguém que conheceu até aquele momento... até aquele momento.
Mas e o marido? Egoísmo dizer que não lembrava dele? Não, ela podia esquecer de tudo e de todos naquela hora. Não lembrava a data que se conheceram, o local do primeiro encontro, sequer o dia do casamento. Esqueceu até que era casada. Todas suas lembranças foram apagadas por uma incrível amnésia angelical.
Os primeiros enjôos? Os desejos inexplicáveis? O medo de que algo acontecesse? O dia em que se olhou no espelho e se sentiu a maior mulher do mundo? Os meses em que não podia andar sem esbarra em um móvel qualquer? A dor do parto? Os choros na madrugada? Nada. Nada disso era lembrado agora.
Naquele momento, toda sua vida deixou de existir. Todas suas preocupações mudaram de curso. Toda sua existência adquiriu um novo propósito.
Naquele momento, ela não era mais criança, adolescente, mulher, humana, nada que pudesse ser descrito em singelas palavras. Naquele momento, ela somente viveria para uma função. Naquele momento, seus sentidos haviam desaparecido sob uma enorme anestesia. Naquele momento, ela compreendeu todos os mistérios da vida. Naquele momento, ela descobriu sua verdadeira profissão.
E recobrando os sentidos, sua mais sublime ação foi curvar o pescoço, apontar a orelha para a pequenina e ouvir novamente a mais extraordinária ordem que podiam lhe dar:
- Mamãe.



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