quarta-feira, 25 de junho de 2008

Em um escorrer de torneira semi-aberta

É impressionante como lembramos daqueles que já se foram. Mas não falo daquelas lembranças tristes e saudosistas, mas sim daquelas superficiais e surpresas, que aparecem quando menos esperamos e nos lugares mais inimagináveis.
Aqueles fugazes olhares distraídos sobre um eletrodoméstico, aquela visão embaçada após olhar muito tempo para a lâmpada fosforescente do seu quarto, aquele reflexo descontínuo que surge no escorrer da água de uma torneira semi-aberta. Todos são palcos de uma lembrança, de um gesto, de um rosto, ou qualquer ínfimo trejeito pertencente a alguém que marcou a nossa vida e não está mais presente.
E se você pensa que estas pessoas são apenas aquelas levadas por alguma infelicidade trágica do destino, usando o eufemismo aquelas que “passaram dessa para a melhor”, digo que você está redondamente enganado. Estas simples e vagas passagens podem ser de amores passados – realizados ou idealizados-, amigos de cursinho que passaram em vestibulares longínquos, um parente a qual uma discussão familiar o afastou, um vizinho barbudo que você nunca conversou, mas sua curiosidade já imaginou várias histórias sobre ele, ou mesmo aquele senhor que passava vendendo sorvetes na sua infância, cuja relação mais profunda entre vocês se baseou na frase “Quanto ta o sorvete, tio?”.
São esses e muitos outros que despertam a atuação da nossa memória e fazem com que surjam no meio da noite, repentinamente e sem explicação. São esses e muitos outros que passam em silêncio por nossos olhos e amenizam nossa saudade. São esses e muitos outros que veremos somente em fugazes, velozes, ternas e doces alucinações. São esses e muitos outros que se foram e não voltam jamais... somente naquele breve escorrer de uma torneira semi-aberta...

sábado, 21 de junho de 2008

Que pena...


Mais uma vez, Marina esperava o café na cama. Que pena que ele não veio. Ao contrário, sentia o cheiro do pãozinho na chapa feito pelo seu marido. Cheiro gostoso, mas fugaz. Fugacidade que significava que ele já havia comido e tão logo saíra para trabalhar.
Mais uma vez, Marina esperava o beijo de “até logo”. Que pena que ele não veio. Ao contrário, encontrou um bilhete assinado de seu marido dizendo que precisara sair com pressa e ligaria para avisar se viria para o almoço. A letra corrida e relaxada não era nem um pouco parecida com a das cartas de amor do começo do namoro.
Mais uma vez, Marina esperava a ligação. Que pena que ela não veio. Ao contrário, a manhã passou todinha em silêncio e o telefone não tocou se quer uma vez. A ausência do “trimmmm” era o sinal de que seu almoço seria um banquete de solidão. Mas quem sabe o marido estaria trabalhando no almoço para sair mais cedo.
Mais uma vez Marina esperava aquela surpresa. Que pena que ela não veio. As horas passavam devagar e o relógio se aproximava normalmente do fim do expediente do marido. Logo ele chegaria em casa cansado e, mesmo que sem maiores surpresas, ela teria companhia.
Mais uma vez Marina esperava pouco atraso. Que pena que ele não veio. No primeiro dia foi um chopp com os amigos, no segundo um jogo de futebol, no terceiro uma esticadinha no trabalho e nos outros o motivo nem importava mais.
Mais uma vez ele chega em casa cansado, liga a televisão, pega água na geladeira, tira os sapatos e a gravata apertados, afaga o cachorro e, por fim, procura Marina. Que pena que ele não acha. Ao contrário, a única coisa que encontra é o bilhete que ele havia deixado anteriormente. No verso, entre algumas frases, uma simboliza perfeitamente a situação: “...que pena que você não veio...”. Nestas seis palavras pode sentir na pele toda decepção de Marina. Ali, ele conhece o paradeiro da esposa. Em uma frase, percebe o que deveria ter percebido há muito tempo. Que pena que ele nunca poderá trazê-la de volta.

domingo, 15 de junho de 2008

Faça chuva ou faça sol

Na chuva, uma pequena garota pede ajuda. “Socorro”.
No sol, um pequeno menino pede comida. “Socorro”.
Na chuva, ninguém pára para ajudá-la.
No sol, o choro dos irmãos parece formar um cântico.
Na chuva, a cada luz de carro acende uma esperança.
No sol, a cada minuto vagarosamente atravessado é uma vitória.
Na chuva, cada luz que novamente não pára diminui a esperança.
No sol, cada lágrima derramada o torna mais e mais fraco.
Na chuva, a menina volta ao que restou do automóvel.
No sol, o garoto não escuta mais seus irmãos.
Na chuva, as ferragens dos seus pais não mais se mexem.
No sol, a ajuda para os irmãos não é mais necessária.
Na chuva, a menina desperançosa. “Por que, meu Deus?”
No sol, o garoto desperançoso. “Por que, meu Deus?”

“Um país tropical, abençoado por Deus...” Este é o Brasil. Faça chuva ou faça sol, sempre seremos o país do carnaval, futebol e da alegria. Por que, meu Deus?

domingo, 8 de junho de 2008

A missão de Isabel

Toda cidade que se preze mantém pelo menos um “Calçadão” na sua área central. E é sempre grande, muito maior do que o seu sulfixo “ão” consegue representar. Aquele barulho de entra e sai nas inúmeras lojas parece ensurdecedor nos primeiros dezessete segundos. Depois, os ouvidos acostumam e o que acaba incomodando insuportavelmente é o silêncio – isso se ele fosse possível de ser alcançado.
Enquanto as pessoas compram, vendem, negociam e barganham dentro dos comércios estabelecidos, outros personagens chamam a atenção da pequena Isabel, 12 anos, que tinha a “missão” de comprar um presente para sua mãe aniversariante. Seu pai acabara de deixá-la sozinha com centenas de recomendações e uma quantia “gorda” para expandir seu leque de opções na busca pelo presente.
Um calor de “rachar coco” na sombra. No sol então, sem comentários. Entre toda aquela multidão de transeuntes, um pequeno altar de mármore e uma caixa com alguns trocados. Sobre a pedra, um homem pintado de prata conservando a mesma posição o dia todo. No meio de toda a similaridade com uma estátua, podem-se ver as gotículas de suor que escorrem pelo seu rosto comprovando sua humanidade. Ao ganhar uma moeda, um gesto de agradecimento e a oportunidade de fazer o sangue circular e relaxar as articulações. Em poucos segundos, aquele homem de nome desconhecido está de volta à posição inicial. A paciência em troca de alguns trocados.
Uma pressa de dar enjôo ao mendigo deitado no banco vendo todo aquele “passa-passa”. Pessoas sem tempo para ouvir os versos doces daquele homem vestido com um terno desbotado e carregando um caderno velho em suas mãos. Entre os passos apertados, os gritos das buzinas e as incessantes negociações, ecoavam apenas as últimas palavras do poeta urbano, aquelas às quais ele reservava uma maior entonação. Quase despercebido, sua arte estava condenada a desaparecer entre a desilusão e a epifania de perceber o quão ignorado foi. A pouca recompensa era mais por pena do que por reconhecimento. As palavras em troca de alguns trocados.
Tênis, sapatos, sandálias, chinelos... Entre passos largos e curtos, um garoto com um caixote de madeira sobre seu ombro observa esse universo para oferecer seus serviços. Passa um sapato e rejeita sua graxa, outro e nova recusa e mais outro e mais outro. Cansado, ele vê pequenas sandálias rosa e por um minuto desvia seus olhos para a dona delas. Por dezessete segundos o mundo dele se equipara com o de Isabel. Ambos a mesma idade, mas com perspectivas tão diferentes. Então, o peso da diferença se põe sobre seu pescoço, ele abaixa a cabeça e entra de novo em seu universo de tênis, sapatos, sandálias, chinelos... A infância em troca de alguns trocados.
Anestesiada pela jornada dos ilustres desconhecidos, Isabel não realizou sua “missão”. O dia virou noite e seu pai logo chegou para buscá-la. Amanhã, ela voltará, assim como fazem a estátua viva, o poeta urbano e o engraxate... e muitos outros que voltam e voltam todos os dias em busca de um presente para suas vidas.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Crônica da mentira

“Mentir - Afirmar coisa que sabe ser contrária à verdade; dizer mentira”. Esta é a definição do dicionário que define a prática mais executada e facilmente adotada pela civilização humana.
Refletindo sobre esta ação tão especial – talvez menos relevante apenas que a menarca feminina e o nascimento de Jesus - percebi que a mentira é nossa eterna companheira, algo que nasceu conosco e nos acompanhará por toda nossa vida. Se você não acredita, pense comigo:
Mentiram quando nos falaram que os bebês eram trazidos pela cegonha...
E nós, com nosso imenso conhecimento de educação sexual adquirido pela novela das oito, mentimos que acreditamos.
Mentiram quando falaram do Papai-Noel e do Coelho da Páscoa...
E nós, geração que não dorme graças aos litros de Coca-Cola e flagra os pais levando os presentes às árvores de natal, mentimos que acreditamos.
Mentiram quando falaram que sem estudos você ficaria desempregado...
E nós, lendo os índices de desemprego nos jornais, sabíamos que mesmo estudando ficaríamos sem emprego, mas, de novo, mentimos que acreditamos.
Mentiram quando o padre disse “até que a morte os separe”...
E nós, sabendo que a rotina e os problemas do casamento agiriam mais rápido que a morte, mentimos que acreditamos.
Mentiram quando disseram que invadiriam o Iraque para destruir armas químicas...
E nós, sabendo do interesse no petróleo, mentimos que não achávamos que era mentira (só pra mudar um pouco a comodidade textual).
Mentiram quando um metalúrgico de voz rouca falou que melhoraria o país...
E nós, entorpecidos pelo seu assistencialismo, mentimos que acreditamos.
Mentiram quando falaram que nossa doença poderia ser revertida...
E nós, ao acordarmos, sete palmos abaixo da terra, com os vermes roendo nossa carne (perdoe-me Machado de Assis pelo furto de suas palavras), mentimos que tínhamos acreditado.

Mentiram quando disseram que a mentira era algo errado, pois se fosse, não era tão freqüente em nossas vidas. Mentiram quando disseram que o cão era o melhor amigo do homem, pois é claro que a mentira ocupa esta posição. Mentiram, mentimos, mentiram, mentimos. Esta é a cíclica recíproca do mundo, este mundo fundamentado em mentiras (ou inverdades, para usar o eufemismo), que não servem para mudar, mas ao menos camuflar as tristes verdades em que vivemos.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Um sonho de chocolate

A noite foi difícil. Muitos pesadelos que não deixaram João ter aquele sono contínuo. Mal ele tinha acordado e já estava cansado. Mesmo assim lavou seu rosto, escovou os dentes e saiu de casa.
João passou na padaria e pediu o de sempre: um pão com manteiga e um café forte. Enquanto fazia seu desjejum, olhou no balcão um sonho de chocolate que ele havia visto ontem e parecia bastante saboroso. Pensou em comer, mas seu desejo foi vencido pelo barulho do ônibus que ele tinha que pegar.
Enquanto lutava por um espaço no ônibus lotado, João lembrou que sempre quis ter um carro vermelho. Não importava ser caro ou barato, ter quatro ou duas portas, importado ou nacional, nada. Somente tinha que ser vermelho. Hoje, ele andava em um ônibus. E ele era amarelo. Suas divagações foram interrompidas com a chegada ao seu trabalho.
O trabalho é um episódio a parte. Desde criança, João sonhava em ser veterinário para cuidar de animais. Virou açougueiro. Talvez pela decepção de ter se tornado exatamente o oposto do que queria, o rapaz já entrava no trabalho em uma espécie de contagem regressiva para o almoço.
Eis que o almoço chegou. João se dirigiu a uma lanchonete próxima. A comida estava salgada. Mas João se contentou. Após a refeição, lembrou do sonho da padaria e como cairia bem de sobremesa. Suas lembranças foram interrompidas pelo telejornal que passava na TV. Aquele político em que João votou estava sendo acusado de inúmeras falcatruas. Antes de dar tempo de se indignar, ele percebeu que era hora de voltar ao trabalho.
A contagem regressiva começa novamente. Mas agora é para ir embora definitivamente – até o outro dia de manhã. Sem mais novidades o relógio anuncia que a tão sonhada hora chegou.
João entra em “seu” ônibus amarelo e pára perto de sua casa. Passa em frente à padaria e nem se lembra do sonho de chocolate. Ao chegar em casa, somente quer tirar os sapatos e descansar.
Após um bom banho gelado, está quase na hora de dormir. João prepara um lanche, come e vai deitar. Com aquele peso na barriga, João volta a se lembrar do sonho de chocolate. Pensa em comê-lo amanhã sem falta. Mas no fundo sabe que sua rotina – assim como toda sua vida – não o deixará saborear o sonho. João adormece. Será mais uma noite difícil.