domingo, 28 de setembro de 2008

Horário Cômico Gratuito


Muitos atribuem ao Horário Eleitoral Gratuito a característica de uma chatice sem fim. E põe muitos nisso. Há aqueles mais radicais que passam todos os canais da televisão na expectativa de que algum canal tenha se desobrigado da obrigatoriedade em veicular.
Mas, no fim não tem jeito. A grande maioria acaba deixando a televisão ligada quando começa o desfile dos candidatos na passarela das promessas. É um tal de proposta daqui e tapinha nas costas dali que se torna uma enorme mesmice. A única coisa que muda são as peculiaridades, que chegam a se tornar até mesmo cômicas. E em todo lugar é assim, sem nenhuma exceção.
Entre os que utilizam uma parte do corpo como apelido ou os que adotam o fato de serem magros ou gordos, destacam-se aqueles que se denominam pela profissão. É um mostruário de “João Coveiro”, “Marcão Frentista”, “Zé da Kombi-que-leva-seu-filho-para-a-escola”, entre outros. Isto causa uma identificação, mas só há um problema: e se houver uma candidata que exerça a profissão mais antiga da história? Como será sua alcunha?
Bom, é melhor mudar de assunto, pois há muito que falar. Que tal as músicas. Há aqueles que optam por um forró ao fundo, uns mais modernos pelo rap e outros que parodiam grandes sucessos já existentes. Sorte que nesta eleição utilizaram músicas de cantores ainda vivos. Imagine como se sentiria Tom Jobim ouvindo sua composição “Chega de Saudades” transformada em versos de pura criatividade e rimas como “de novo” e “povo”. Quase uma blasfêmia musical.
Assim, mesmo que em muitos casos pareça, o horário eleitoral não é uma palhaçada. Longe de ser um festival de “besteirol”, é uma arma da população. Sua importância é tamanha que, em períodos da ditadura, chegou a ser proibida sua veiculação. O necessário é se manter sério, pois, saiba que é ao abrir a boca para gargalhar que acabamos engolindo muita conversa fiada.
Parece até discurso político, né? Mas, neste você pode confiar.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Naquele Momento

-Mamãe.
Naquele momento, os olhos dela umedeceram. Ela esqueceu que fora criança e que reprovou a sexta série. Esqueceu também do primeiro baile escondida do pai, do primeiro namoradinho do colégio. Não se lembrava sequer que era a Miss de sua pequena cidade.
Naquele momento, esquecera todas as loucuras de sua adolescência. Não passava pela sua hipnótica memória sequer que um dia passou por essa fase tão complicada. Primeiro soutien? Era o mesmo que pedir para que ela rememorasse o rosto de todas as pessoas que conheceu na vida. Na verdade, ela não lembrava de ninguém que conheceu até aquele momento... até aquele momento.
Mas e o marido? Egoísmo dizer que não lembrava dele? Não, ela podia esquecer de tudo e de todos naquela hora. Não lembrava a data que se conheceram, o local do primeiro encontro, sequer o dia do casamento. Esqueceu até que era casada. Todas suas lembranças foram apagadas por uma incrível amnésia angelical.
Os primeiros enjôos? Os desejos inexplicáveis? O medo de que algo acontecesse? O dia em que se olhou no espelho e se sentiu a maior mulher do mundo? Os meses em que não podia andar sem esbarra em um móvel qualquer? A dor do parto? Os choros na madrugada? Nada. Nada disso era lembrado agora.
Naquele momento, toda sua vida deixou de existir. Todas suas preocupações mudaram de curso. Toda sua existência adquiriu um novo propósito.
Naquele momento, ela não era mais criança, adolescente, mulher, humana, nada que pudesse ser descrito em singelas palavras. Naquele momento, ela somente viveria para uma função. Naquele momento, seus sentidos haviam desaparecido sob uma enorme anestesia. Naquele momento, ela compreendeu todos os mistérios da vida. Naquele momento, ela descobriu sua verdadeira profissão.
E recobrando os sentidos, sua mais sublime ação foi curvar o pescoço, apontar a orelha para a pequenina e ouvir novamente a mais extraordinária ordem que podiam lhe dar:
- Mamãe.



quarta-feira, 10 de setembro de 2008

O palavrão nosso de cada dia...

Pare um pouco e se lembre da sensação.

Aquela sobrancelha franzida, aquele dedo apontado, o peito estufado. O frenesi era delicioso. Chegávamos até a cuspir. Era simplesmente fantástico soltar um “vai tomar no cú” no meio de uma discussão, e depois acompanhar a reação e a réplica do ofendido.
Hoje, a sobrancelha somente acompanha os olhos ao seguir a setinha, o dedo apenas pressiona letra por letra, o peito se mantém estufado somente pelo apoio da cadeira em suas costas. Cuspir? Só se for para pegar uma flanelinha e limpar a tela logo em seguida. O emocionante palavrão acima foi substituído por um simples, mero e sem-graça “vtnc”.
E o mesmo ocorreu com “fdp”, “vsf”, “kraio” e assim por diante. A linguagem virtual, que tudo abrevia e condensa, diminuiu e condensou a maior dádiva do ser humano: a capacidade de xingar (O Word mandou eu substituir “xingar” por “falar mal”, mas em protesto eu não o farei) o seu próximo.
Alguns acreditavam que o diferencial do homem era a presença do polegar. Outros, a capacidade de raciocínio. Os mais espertos sabem que é a possibilidade de xingar. Imagine quantas guerras teriam sido evitadas com o exercício deste instrumento mágico. Segundo relatos, Hitler era extremamente educado. Se ele tivesse xingado quem não gostava, talvez não os colocasse cruelmente em câmaras de gás. Se os americanos tivessem olhado para o céu e gritado “seu japa filho-da-puta”, certamente não haveria o episódio de Hiroshima (talvez se os japoneses fizessem o mesmo antes, não haveria nem Pearl Harbor). Talvez o prazer de xingar diminua a necessidade de brigar.
E a siglanização acaba justamente com esta sensação prazerosa provocada pelo xingamento. O pior é que uma vez siglanizada, a palavra vai perdendo seu sentido. ONU, CPF, CIC, IPTU, RG, ONG, não são mais nada além de siglas. Ninguém lembra que um dia foram palavras. Ninguém sabe que um dia foram assassinadas por alguém que quis economizar tempo.
Em breve, a emoção do seu palavrão diminuirá. Em um ato de explosão logo virá um grito de “Veteenecê”... Coisa mais sem graça. Aquele seu amigo não terá mais a mãe homenageada, mas sim ficará bravo apenas com um “efedepê”... Coisa mais triste não há.
O orgasmo mental provocado pela proliferação de um palavrão está desaparecendo.
Com certeza, o texto se alongou demais. É bem provável que você já esteja cansado de tanta baboseira e pegando ódio de estar perdendo tempo aqui. Se estiver acontecendo tudo isto, consegui o que queria, pois, sei que, dentro de alguns segundos, você soltará um prazeroso e sonoro “vai tomar no cú, seu filho da puta” e não deixará a siglanização extinguir um bem passado de geração a geração: o palavrão nosso de cada dia.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Uma história de quadrinhos qualquer

O filme caminhou a passos largos para o “grand finale”. Muito maior do que a quantidade dos incontáveis créditos era o apelo emocional que aquele filme comum proporcionara. Era impossível não umedecer os olhos. Quando ele olhou para o sofá ao lado pode ter certeza disso. Lá estava seu pai disfarçando e fazendo aquela pose de que “um cisco caiu no meu olho”. Naquele momento, o filho havia perdido seu chão.
O garoto logo esqueceu do beijo entre o mocinho e a mocinha. Na sua cabeça somente borbulhava a decepção de confiar em um falso super-herói. Como ele, o filho, poderia ser protegido por alguém que chorava em um filme qualquer? O que seria quando um bandido invadisse sua casa? Ou se um monstro de três cabeças aparecesse? Ou até na mais simples situação do garoto cair e ralar o joelho? O que o pai faria em quaisquer desses casos? O filho somente poderia pensar que logo seu pai abriria o berreiro.
Em instantes, o seu maior super-herói foi vencido. O Super-Homem encontrou sua Criptonita. O filho agora não poderia entrar em uma briga dizendo “Vou chamar o meu pai”. O mais novo desiludido no mundo tinha absoluta certeza de que nunca mais manteria o mesmo orgulho de antes ao olhar para seu velho.
Mas o “nunca mais” terminou mais cedo. Três segundos depois aquela certeza se desfez. O garoto viu naquela tentativa paterna de disfarçar as fragilidades exatamente a mesma atitude dos seus heróis de quadrinhos em esconder sua identidade. Ele percebeu que aquilo não era um cisco, mas sim algo muito maior: lá estava a prova de que seu pai não falharia nunca, de que seu pai sempre precisava ser forte para o que desse e viesse. Seja um pequeno tombo ou um monstro de três cabeças. Ele, o garoto, enxergou com muito mais nitidez o enorme “S” estampado no peito do seu pai. E ele, o pai, enxergou o enorme orgulho nos olhos de seu filho.
Assim, em uma sala qualquer, de uma cidade qualquer, em frente a uma televisão qualquer, a identidade de um super-herói qualquer era bruscamente revelada. E uma saga bravamente heróica chegava ao fim. E um final feliz, digno de uma história em quadrinhos qualquer.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

O diabo e a ignorância

"Do mesmo modo que o maior truque do Diabo é convencer a todos de que ele não existe, o maior truque da ignorância é fazer com que aquele que a possui se ache inteligente"

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Entre um leve esbarrão...

Um passo errado e um roxo na perna. Uma virada sem calcular e uma topada no canto da mesa. Um centímetro para o lado e lá estava ele caído no chão. Assim era a vida de Carlos, que perdeu a visão na adolescência, vítima de uma veloz ultrapassagem na contra-mão.
O gosto das cores, a ardência estranha do sol sobre as pálpebras, a dádiva de olhar com os olhos e não com as mãos fizeram parte da vida de Carlos e, hoje, são lembranças que não o deixam esquecer a época em que era feliz. Mais de sessenta anos não deixaram Carlos esquecer a aurora de sua vida. Não o deixam esquecer quando ele era igual a todos.
Sempre de mau-humor, Carlos teve uma pajem. A pobre moça não agüentou seu “emburramento” com a vida, que era todo canalizado sobre ela. Carlos teve um cachorro guia. O pobre cachorro esqueceu seus instintos ao perceber que aquele homem não queria a menor ajuda. Carlos teve muitos amigos. Aqueles que resistiram ao seu pessimismo não agüentaram as ofensas desmedidas. Carlos teve uma família. Ele fizeram questão de manter somente os laços sanguíneos. Carlos vivia. Hoje, ele sobrevivia.
Saía raramente de casa. Hoje foi um desses dias. Passo após passo. A cada lugar em que ele passava o pessimismo tomava conta. Muitos existem que aquela história de aura negativa não existe. Quem cruzasse o caminho de Carlos descobriria o contrário. De repente, ele esbarrou em alguém. Rapidamente já esbravejou um “Tá loco?”. Tateando percebeu que era uma criança. Pela voz pedindo desculpa Carlos percebeu que se tratava de uma garota.
Muitos ficariam incomodados por se tratar de uma criança, mas Carlos não. Para ele era só um objeto em seu caminho. Mais bravo do que de início, ele trovejou: “Só me faltava essa...”.
Com uma voz alegre, totalmente contrastante com a do velho emburrado, a menina disse: “Não fique brabo. A vida é tão linda. Os pássaros cantam bonito. As flores têm perfume. O vento é tão refrescante...”.
O velho logo interrompeu: “Não está vendo que sou cego, garota?”.
A menina sem jeito complementou: “Não. É que eu também sou cega”.
Sem palavras e com um pigarro de angústia na garganta, Carlos percebeu em dois minutos o que não percebeu em mais de sessenta anos. Entre um breve esbarrão, Carlos viu que não é preciso de olhos para enxergar a vida. É preciso somente querer enxergá-la do modo que ela se dispõe. Agora, o cego Carlos pôde enxergar isto...

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Em um escorrer de torneira semi-aberta

É impressionante como lembramos daqueles que já se foram. Mas não falo daquelas lembranças tristes e saudosistas, mas sim daquelas superficiais e surpresas, que aparecem quando menos esperamos e nos lugares mais inimagináveis.
Aqueles fugazes olhares distraídos sobre um eletrodoméstico, aquela visão embaçada após olhar muito tempo para a lâmpada fosforescente do seu quarto, aquele reflexo descontínuo que surge no escorrer da água de uma torneira semi-aberta. Todos são palcos de uma lembrança, de um gesto, de um rosto, ou qualquer ínfimo trejeito pertencente a alguém que marcou a nossa vida e não está mais presente.
E se você pensa que estas pessoas são apenas aquelas levadas por alguma infelicidade trágica do destino, usando o eufemismo aquelas que “passaram dessa para a melhor”, digo que você está redondamente enganado. Estas simples e vagas passagens podem ser de amores passados – realizados ou idealizados-, amigos de cursinho que passaram em vestibulares longínquos, um parente a qual uma discussão familiar o afastou, um vizinho barbudo que você nunca conversou, mas sua curiosidade já imaginou várias histórias sobre ele, ou mesmo aquele senhor que passava vendendo sorvetes na sua infância, cuja relação mais profunda entre vocês se baseou na frase “Quanto ta o sorvete, tio?”.
São esses e muitos outros que despertam a atuação da nossa memória e fazem com que surjam no meio da noite, repentinamente e sem explicação. São esses e muitos outros que passam em silêncio por nossos olhos e amenizam nossa saudade. São esses e muitos outros que veremos somente em fugazes, velozes, ternas e doces alucinações. São esses e muitos outros que se foram e não voltam jamais... somente naquele breve escorrer de uma torneira semi-aberta...