domingo, 28 de setembro de 2008

Horário Cômico Gratuito


Muitos atribuem ao Horário Eleitoral Gratuito a característica de uma chatice sem fim. E põe muitos nisso. Há aqueles mais radicais que passam todos os canais da televisão na expectativa de que algum canal tenha se desobrigado da obrigatoriedade em veicular.
Mas, no fim não tem jeito. A grande maioria acaba deixando a televisão ligada quando começa o desfile dos candidatos na passarela das promessas. É um tal de proposta daqui e tapinha nas costas dali que se torna uma enorme mesmice. A única coisa que muda são as peculiaridades, que chegam a se tornar até mesmo cômicas. E em todo lugar é assim, sem nenhuma exceção.
Entre os que utilizam uma parte do corpo como apelido ou os que adotam o fato de serem magros ou gordos, destacam-se aqueles que se denominam pela profissão. É um mostruário de “João Coveiro”, “Marcão Frentista”, “Zé da Kombi-que-leva-seu-filho-para-a-escola”, entre outros. Isto causa uma identificação, mas só há um problema: e se houver uma candidata que exerça a profissão mais antiga da história? Como será sua alcunha?
Bom, é melhor mudar de assunto, pois há muito que falar. Que tal as músicas. Há aqueles que optam por um forró ao fundo, uns mais modernos pelo rap e outros que parodiam grandes sucessos já existentes. Sorte que nesta eleição utilizaram músicas de cantores ainda vivos. Imagine como se sentiria Tom Jobim ouvindo sua composição “Chega de Saudades” transformada em versos de pura criatividade e rimas como “de novo” e “povo”. Quase uma blasfêmia musical.
Assim, mesmo que em muitos casos pareça, o horário eleitoral não é uma palhaçada. Longe de ser um festival de “besteirol”, é uma arma da população. Sua importância é tamanha que, em períodos da ditadura, chegou a ser proibida sua veiculação. O necessário é se manter sério, pois, saiba que é ao abrir a boca para gargalhar que acabamos engolindo muita conversa fiada.
Parece até discurso político, né? Mas, neste você pode confiar.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Naquele Momento

-Mamãe.
Naquele momento, os olhos dela umedeceram. Ela esqueceu que fora criança e que reprovou a sexta série. Esqueceu também do primeiro baile escondida do pai, do primeiro namoradinho do colégio. Não se lembrava sequer que era a Miss de sua pequena cidade.
Naquele momento, esquecera todas as loucuras de sua adolescência. Não passava pela sua hipnótica memória sequer que um dia passou por essa fase tão complicada. Primeiro soutien? Era o mesmo que pedir para que ela rememorasse o rosto de todas as pessoas que conheceu na vida. Na verdade, ela não lembrava de ninguém que conheceu até aquele momento... até aquele momento.
Mas e o marido? Egoísmo dizer que não lembrava dele? Não, ela podia esquecer de tudo e de todos naquela hora. Não lembrava a data que se conheceram, o local do primeiro encontro, sequer o dia do casamento. Esqueceu até que era casada. Todas suas lembranças foram apagadas por uma incrível amnésia angelical.
Os primeiros enjôos? Os desejos inexplicáveis? O medo de que algo acontecesse? O dia em que se olhou no espelho e se sentiu a maior mulher do mundo? Os meses em que não podia andar sem esbarra em um móvel qualquer? A dor do parto? Os choros na madrugada? Nada. Nada disso era lembrado agora.
Naquele momento, toda sua vida deixou de existir. Todas suas preocupações mudaram de curso. Toda sua existência adquiriu um novo propósito.
Naquele momento, ela não era mais criança, adolescente, mulher, humana, nada que pudesse ser descrito em singelas palavras. Naquele momento, ela somente viveria para uma função. Naquele momento, seus sentidos haviam desaparecido sob uma enorme anestesia. Naquele momento, ela compreendeu todos os mistérios da vida. Naquele momento, ela descobriu sua verdadeira profissão.
E recobrando os sentidos, sua mais sublime ação foi curvar o pescoço, apontar a orelha para a pequenina e ouvir novamente a mais extraordinária ordem que podiam lhe dar:
- Mamãe.



quarta-feira, 10 de setembro de 2008

O palavrão nosso de cada dia...

Pare um pouco e se lembre da sensação.

Aquela sobrancelha franzida, aquele dedo apontado, o peito estufado. O frenesi era delicioso. Chegávamos até a cuspir. Era simplesmente fantástico soltar um “vai tomar no cú” no meio de uma discussão, e depois acompanhar a reação e a réplica do ofendido.
Hoje, a sobrancelha somente acompanha os olhos ao seguir a setinha, o dedo apenas pressiona letra por letra, o peito se mantém estufado somente pelo apoio da cadeira em suas costas. Cuspir? Só se for para pegar uma flanelinha e limpar a tela logo em seguida. O emocionante palavrão acima foi substituído por um simples, mero e sem-graça “vtnc”.
E o mesmo ocorreu com “fdp”, “vsf”, “kraio” e assim por diante. A linguagem virtual, que tudo abrevia e condensa, diminuiu e condensou a maior dádiva do ser humano: a capacidade de xingar (O Word mandou eu substituir “xingar” por “falar mal”, mas em protesto eu não o farei) o seu próximo.
Alguns acreditavam que o diferencial do homem era a presença do polegar. Outros, a capacidade de raciocínio. Os mais espertos sabem que é a possibilidade de xingar. Imagine quantas guerras teriam sido evitadas com o exercício deste instrumento mágico. Segundo relatos, Hitler era extremamente educado. Se ele tivesse xingado quem não gostava, talvez não os colocasse cruelmente em câmaras de gás. Se os americanos tivessem olhado para o céu e gritado “seu japa filho-da-puta”, certamente não haveria o episódio de Hiroshima (talvez se os japoneses fizessem o mesmo antes, não haveria nem Pearl Harbor). Talvez o prazer de xingar diminua a necessidade de brigar.
E a siglanização acaba justamente com esta sensação prazerosa provocada pelo xingamento. O pior é que uma vez siglanizada, a palavra vai perdendo seu sentido. ONU, CPF, CIC, IPTU, RG, ONG, não são mais nada além de siglas. Ninguém lembra que um dia foram palavras. Ninguém sabe que um dia foram assassinadas por alguém que quis economizar tempo.
Em breve, a emoção do seu palavrão diminuirá. Em um ato de explosão logo virá um grito de “Veteenecê”... Coisa mais sem graça. Aquele seu amigo não terá mais a mãe homenageada, mas sim ficará bravo apenas com um “efedepê”... Coisa mais triste não há.
O orgasmo mental provocado pela proliferação de um palavrão está desaparecendo.
Com certeza, o texto se alongou demais. É bem provável que você já esteja cansado de tanta baboseira e pegando ódio de estar perdendo tempo aqui. Se estiver acontecendo tudo isto, consegui o que queria, pois, sei que, dentro de alguns segundos, você soltará um prazeroso e sonoro “vai tomar no cú, seu filho da puta” e não deixará a siglanização extinguir um bem passado de geração a geração: o palavrão nosso de cada dia.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Uma história de quadrinhos qualquer

O filme caminhou a passos largos para o “grand finale”. Muito maior do que a quantidade dos incontáveis créditos era o apelo emocional que aquele filme comum proporcionara. Era impossível não umedecer os olhos. Quando ele olhou para o sofá ao lado pode ter certeza disso. Lá estava seu pai disfarçando e fazendo aquela pose de que “um cisco caiu no meu olho”. Naquele momento, o filho havia perdido seu chão.
O garoto logo esqueceu do beijo entre o mocinho e a mocinha. Na sua cabeça somente borbulhava a decepção de confiar em um falso super-herói. Como ele, o filho, poderia ser protegido por alguém que chorava em um filme qualquer? O que seria quando um bandido invadisse sua casa? Ou se um monstro de três cabeças aparecesse? Ou até na mais simples situação do garoto cair e ralar o joelho? O que o pai faria em quaisquer desses casos? O filho somente poderia pensar que logo seu pai abriria o berreiro.
Em instantes, o seu maior super-herói foi vencido. O Super-Homem encontrou sua Criptonita. O filho agora não poderia entrar em uma briga dizendo “Vou chamar o meu pai”. O mais novo desiludido no mundo tinha absoluta certeza de que nunca mais manteria o mesmo orgulho de antes ao olhar para seu velho.
Mas o “nunca mais” terminou mais cedo. Três segundos depois aquela certeza se desfez. O garoto viu naquela tentativa paterna de disfarçar as fragilidades exatamente a mesma atitude dos seus heróis de quadrinhos em esconder sua identidade. Ele percebeu que aquilo não era um cisco, mas sim algo muito maior: lá estava a prova de que seu pai não falharia nunca, de que seu pai sempre precisava ser forte para o que desse e viesse. Seja um pequeno tombo ou um monstro de três cabeças. Ele, o garoto, enxergou com muito mais nitidez o enorme “S” estampado no peito do seu pai. E ele, o pai, enxergou o enorme orgulho nos olhos de seu filho.
Assim, em uma sala qualquer, de uma cidade qualquer, em frente a uma televisão qualquer, a identidade de um super-herói qualquer era bruscamente revelada. E uma saga bravamente heróica chegava ao fim. E um final feliz, digno de uma história em quadrinhos qualquer.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

O diabo e a ignorância

"Do mesmo modo que o maior truque do Diabo é convencer a todos de que ele não existe, o maior truque da ignorância é fazer com que aquele que a possui se ache inteligente"

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Entre um leve esbarrão...

Um passo errado e um roxo na perna. Uma virada sem calcular e uma topada no canto da mesa. Um centímetro para o lado e lá estava ele caído no chão. Assim era a vida de Carlos, que perdeu a visão na adolescência, vítima de uma veloz ultrapassagem na contra-mão.
O gosto das cores, a ardência estranha do sol sobre as pálpebras, a dádiva de olhar com os olhos e não com as mãos fizeram parte da vida de Carlos e, hoje, são lembranças que não o deixam esquecer a época em que era feliz. Mais de sessenta anos não deixaram Carlos esquecer a aurora de sua vida. Não o deixam esquecer quando ele era igual a todos.
Sempre de mau-humor, Carlos teve uma pajem. A pobre moça não agüentou seu “emburramento” com a vida, que era todo canalizado sobre ela. Carlos teve um cachorro guia. O pobre cachorro esqueceu seus instintos ao perceber que aquele homem não queria a menor ajuda. Carlos teve muitos amigos. Aqueles que resistiram ao seu pessimismo não agüentaram as ofensas desmedidas. Carlos teve uma família. Ele fizeram questão de manter somente os laços sanguíneos. Carlos vivia. Hoje, ele sobrevivia.
Saía raramente de casa. Hoje foi um desses dias. Passo após passo. A cada lugar em que ele passava o pessimismo tomava conta. Muitos existem que aquela história de aura negativa não existe. Quem cruzasse o caminho de Carlos descobriria o contrário. De repente, ele esbarrou em alguém. Rapidamente já esbravejou um “Tá loco?”. Tateando percebeu que era uma criança. Pela voz pedindo desculpa Carlos percebeu que se tratava de uma garota.
Muitos ficariam incomodados por se tratar de uma criança, mas Carlos não. Para ele era só um objeto em seu caminho. Mais bravo do que de início, ele trovejou: “Só me faltava essa...”.
Com uma voz alegre, totalmente contrastante com a do velho emburrado, a menina disse: “Não fique brabo. A vida é tão linda. Os pássaros cantam bonito. As flores têm perfume. O vento é tão refrescante...”.
O velho logo interrompeu: “Não está vendo que sou cego, garota?”.
A menina sem jeito complementou: “Não. É que eu também sou cega”.
Sem palavras e com um pigarro de angústia na garganta, Carlos percebeu em dois minutos o que não percebeu em mais de sessenta anos. Entre um breve esbarrão, Carlos viu que não é preciso de olhos para enxergar a vida. É preciso somente querer enxergá-la do modo que ela se dispõe. Agora, o cego Carlos pôde enxergar isto...

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Em um escorrer de torneira semi-aberta

É impressionante como lembramos daqueles que já se foram. Mas não falo daquelas lembranças tristes e saudosistas, mas sim daquelas superficiais e surpresas, que aparecem quando menos esperamos e nos lugares mais inimagináveis.
Aqueles fugazes olhares distraídos sobre um eletrodoméstico, aquela visão embaçada após olhar muito tempo para a lâmpada fosforescente do seu quarto, aquele reflexo descontínuo que surge no escorrer da água de uma torneira semi-aberta. Todos são palcos de uma lembrança, de um gesto, de um rosto, ou qualquer ínfimo trejeito pertencente a alguém que marcou a nossa vida e não está mais presente.
E se você pensa que estas pessoas são apenas aquelas levadas por alguma infelicidade trágica do destino, usando o eufemismo aquelas que “passaram dessa para a melhor”, digo que você está redondamente enganado. Estas simples e vagas passagens podem ser de amores passados – realizados ou idealizados-, amigos de cursinho que passaram em vestibulares longínquos, um parente a qual uma discussão familiar o afastou, um vizinho barbudo que você nunca conversou, mas sua curiosidade já imaginou várias histórias sobre ele, ou mesmo aquele senhor que passava vendendo sorvetes na sua infância, cuja relação mais profunda entre vocês se baseou na frase “Quanto ta o sorvete, tio?”.
São esses e muitos outros que despertam a atuação da nossa memória e fazem com que surjam no meio da noite, repentinamente e sem explicação. São esses e muitos outros que passam em silêncio por nossos olhos e amenizam nossa saudade. São esses e muitos outros que veremos somente em fugazes, velozes, ternas e doces alucinações. São esses e muitos outros que se foram e não voltam jamais... somente naquele breve escorrer de uma torneira semi-aberta...

sábado, 21 de junho de 2008

Que pena...


Mais uma vez, Marina esperava o café na cama. Que pena que ele não veio. Ao contrário, sentia o cheiro do pãozinho na chapa feito pelo seu marido. Cheiro gostoso, mas fugaz. Fugacidade que significava que ele já havia comido e tão logo saíra para trabalhar.
Mais uma vez, Marina esperava o beijo de “até logo”. Que pena que ele não veio. Ao contrário, encontrou um bilhete assinado de seu marido dizendo que precisara sair com pressa e ligaria para avisar se viria para o almoço. A letra corrida e relaxada não era nem um pouco parecida com a das cartas de amor do começo do namoro.
Mais uma vez, Marina esperava a ligação. Que pena que ela não veio. Ao contrário, a manhã passou todinha em silêncio e o telefone não tocou se quer uma vez. A ausência do “trimmmm” era o sinal de que seu almoço seria um banquete de solidão. Mas quem sabe o marido estaria trabalhando no almoço para sair mais cedo.
Mais uma vez Marina esperava aquela surpresa. Que pena que ela não veio. As horas passavam devagar e o relógio se aproximava normalmente do fim do expediente do marido. Logo ele chegaria em casa cansado e, mesmo que sem maiores surpresas, ela teria companhia.
Mais uma vez Marina esperava pouco atraso. Que pena que ele não veio. No primeiro dia foi um chopp com os amigos, no segundo um jogo de futebol, no terceiro uma esticadinha no trabalho e nos outros o motivo nem importava mais.
Mais uma vez ele chega em casa cansado, liga a televisão, pega água na geladeira, tira os sapatos e a gravata apertados, afaga o cachorro e, por fim, procura Marina. Que pena que ele não acha. Ao contrário, a única coisa que encontra é o bilhete que ele havia deixado anteriormente. No verso, entre algumas frases, uma simboliza perfeitamente a situação: “...que pena que você não veio...”. Nestas seis palavras pode sentir na pele toda decepção de Marina. Ali, ele conhece o paradeiro da esposa. Em uma frase, percebe o que deveria ter percebido há muito tempo. Que pena que ele nunca poderá trazê-la de volta.

domingo, 15 de junho de 2008

Faça chuva ou faça sol

Na chuva, uma pequena garota pede ajuda. “Socorro”.
No sol, um pequeno menino pede comida. “Socorro”.
Na chuva, ninguém pára para ajudá-la.
No sol, o choro dos irmãos parece formar um cântico.
Na chuva, a cada luz de carro acende uma esperança.
No sol, a cada minuto vagarosamente atravessado é uma vitória.
Na chuva, cada luz que novamente não pára diminui a esperança.
No sol, cada lágrima derramada o torna mais e mais fraco.
Na chuva, a menina volta ao que restou do automóvel.
No sol, o garoto não escuta mais seus irmãos.
Na chuva, as ferragens dos seus pais não mais se mexem.
No sol, a ajuda para os irmãos não é mais necessária.
Na chuva, a menina desperançosa. “Por que, meu Deus?”
No sol, o garoto desperançoso. “Por que, meu Deus?”

“Um país tropical, abençoado por Deus...” Este é o Brasil. Faça chuva ou faça sol, sempre seremos o país do carnaval, futebol e da alegria. Por que, meu Deus?

domingo, 8 de junho de 2008

A missão de Isabel

Toda cidade que se preze mantém pelo menos um “Calçadão” na sua área central. E é sempre grande, muito maior do que o seu sulfixo “ão” consegue representar. Aquele barulho de entra e sai nas inúmeras lojas parece ensurdecedor nos primeiros dezessete segundos. Depois, os ouvidos acostumam e o que acaba incomodando insuportavelmente é o silêncio – isso se ele fosse possível de ser alcançado.
Enquanto as pessoas compram, vendem, negociam e barganham dentro dos comércios estabelecidos, outros personagens chamam a atenção da pequena Isabel, 12 anos, que tinha a “missão” de comprar um presente para sua mãe aniversariante. Seu pai acabara de deixá-la sozinha com centenas de recomendações e uma quantia “gorda” para expandir seu leque de opções na busca pelo presente.
Um calor de “rachar coco” na sombra. No sol então, sem comentários. Entre toda aquela multidão de transeuntes, um pequeno altar de mármore e uma caixa com alguns trocados. Sobre a pedra, um homem pintado de prata conservando a mesma posição o dia todo. No meio de toda a similaridade com uma estátua, podem-se ver as gotículas de suor que escorrem pelo seu rosto comprovando sua humanidade. Ao ganhar uma moeda, um gesto de agradecimento e a oportunidade de fazer o sangue circular e relaxar as articulações. Em poucos segundos, aquele homem de nome desconhecido está de volta à posição inicial. A paciência em troca de alguns trocados.
Uma pressa de dar enjôo ao mendigo deitado no banco vendo todo aquele “passa-passa”. Pessoas sem tempo para ouvir os versos doces daquele homem vestido com um terno desbotado e carregando um caderno velho em suas mãos. Entre os passos apertados, os gritos das buzinas e as incessantes negociações, ecoavam apenas as últimas palavras do poeta urbano, aquelas às quais ele reservava uma maior entonação. Quase despercebido, sua arte estava condenada a desaparecer entre a desilusão e a epifania de perceber o quão ignorado foi. A pouca recompensa era mais por pena do que por reconhecimento. As palavras em troca de alguns trocados.
Tênis, sapatos, sandálias, chinelos... Entre passos largos e curtos, um garoto com um caixote de madeira sobre seu ombro observa esse universo para oferecer seus serviços. Passa um sapato e rejeita sua graxa, outro e nova recusa e mais outro e mais outro. Cansado, ele vê pequenas sandálias rosa e por um minuto desvia seus olhos para a dona delas. Por dezessete segundos o mundo dele se equipara com o de Isabel. Ambos a mesma idade, mas com perspectivas tão diferentes. Então, o peso da diferença se põe sobre seu pescoço, ele abaixa a cabeça e entra de novo em seu universo de tênis, sapatos, sandálias, chinelos... A infância em troca de alguns trocados.
Anestesiada pela jornada dos ilustres desconhecidos, Isabel não realizou sua “missão”. O dia virou noite e seu pai logo chegou para buscá-la. Amanhã, ela voltará, assim como fazem a estátua viva, o poeta urbano e o engraxate... e muitos outros que voltam e voltam todos os dias em busca de um presente para suas vidas.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Crônica da mentira

“Mentir - Afirmar coisa que sabe ser contrária à verdade; dizer mentira”. Esta é a definição do dicionário que define a prática mais executada e facilmente adotada pela civilização humana.
Refletindo sobre esta ação tão especial – talvez menos relevante apenas que a menarca feminina e o nascimento de Jesus - percebi que a mentira é nossa eterna companheira, algo que nasceu conosco e nos acompanhará por toda nossa vida. Se você não acredita, pense comigo:
Mentiram quando nos falaram que os bebês eram trazidos pela cegonha...
E nós, com nosso imenso conhecimento de educação sexual adquirido pela novela das oito, mentimos que acreditamos.
Mentiram quando falaram do Papai-Noel e do Coelho da Páscoa...
E nós, geração que não dorme graças aos litros de Coca-Cola e flagra os pais levando os presentes às árvores de natal, mentimos que acreditamos.
Mentiram quando falaram que sem estudos você ficaria desempregado...
E nós, lendo os índices de desemprego nos jornais, sabíamos que mesmo estudando ficaríamos sem emprego, mas, de novo, mentimos que acreditamos.
Mentiram quando o padre disse “até que a morte os separe”...
E nós, sabendo que a rotina e os problemas do casamento agiriam mais rápido que a morte, mentimos que acreditamos.
Mentiram quando disseram que invadiriam o Iraque para destruir armas químicas...
E nós, sabendo do interesse no petróleo, mentimos que não achávamos que era mentira (só pra mudar um pouco a comodidade textual).
Mentiram quando um metalúrgico de voz rouca falou que melhoraria o país...
E nós, entorpecidos pelo seu assistencialismo, mentimos que acreditamos.
Mentiram quando falaram que nossa doença poderia ser revertida...
E nós, ao acordarmos, sete palmos abaixo da terra, com os vermes roendo nossa carne (perdoe-me Machado de Assis pelo furto de suas palavras), mentimos que tínhamos acreditado.

Mentiram quando disseram que a mentira era algo errado, pois se fosse, não era tão freqüente em nossas vidas. Mentiram quando disseram que o cão era o melhor amigo do homem, pois é claro que a mentira ocupa esta posição. Mentiram, mentimos, mentiram, mentimos. Esta é a cíclica recíproca do mundo, este mundo fundamentado em mentiras (ou inverdades, para usar o eufemismo), que não servem para mudar, mas ao menos camuflar as tristes verdades em que vivemos.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Um sonho de chocolate

A noite foi difícil. Muitos pesadelos que não deixaram João ter aquele sono contínuo. Mal ele tinha acordado e já estava cansado. Mesmo assim lavou seu rosto, escovou os dentes e saiu de casa.
João passou na padaria e pediu o de sempre: um pão com manteiga e um café forte. Enquanto fazia seu desjejum, olhou no balcão um sonho de chocolate que ele havia visto ontem e parecia bastante saboroso. Pensou em comer, mas seu desejo foi vencido pelo barulho do ônibus que ele tinha que pegar.
Enquanto lutava por um espaço no ônibus lotado, João lembrou que sempre quis ter um carro vermelho. Não importava ser caro ou barato, ter quatro ou duas portas, importado ou nacional, nada. Somente tinha que ser vermelho. Hoje, ele andava em um ônibus. E ele era amarelo. Suas divagações foram interrompidas com a chegada ao seu trabalho.
O trabalho é um episódio a parte. Desde criança, João sonhava em ser veterinário para cuidar de animais. Virou açougueiro. Talvez pela decepção de ter se tornado exatamente o oposto do que queria, o rapaz já entrava no trabalho em uma espécie de contagem regressiva para o almoço.
Eis que o almoço chegou. João se dirigiu a uma lanchonete próxima. A comida estava salgada. Mas João se contentou. Após a refeição, lembrou do sonho da padaria e como cairia bem de sobremesa. Suas lembranças foram interrompidas pelo telejornal que passava na TV. Aquele político em que João votou estava sendo acusado de inúmeras falcatruas. Antes de dar tempo de se indignar, ele percebeu que era hora de voltar ao trabalho.
A contagem regressiva começa novamente. Mas agora é para ir embora definitivamente – até o outro dia de manhã. Sem mais novidades o relógio anuncia que a tão sonhada hora chegou.
João entra em “seu” ônibus amarelo e pára perto de sua casa. Passa em frente à padaria e nem se lembra do sonho de chocolate. Ao chegar em casa, somente quer tirar os sapatos e descansar.
Após um bom banho gelado, está quase na hora de dormir. João prepara um lanche, come e vai deitar. Com aquele peso na barriga, João volta a se lembrar do sonho de chocolate. Pensa em comê-lo amanhã sem falta. Mas no fundo sabe que sua rotina – assim como toda sua vida – não o deixará saborear o sonho. João adormece. Será mais uma noite difícil.