quinta-feira, 24 de julho de 2008

Uma história de quadrinhos qualquer

O filme caminhou a passos largos para o “grand finale”. Muito maior do que a quantidade dos incontáveis créditos era o apelo emocional que aquele filme comum proporcionara. Era impossível não umedecer os olhos. Quando ele olhou para o sofá ao lado pode ter certeza disso. Lá estava seu pai disfarçando e fazendo aquela pose de que “um cisco caiu no meu olho”. Naquele momento, o filho havia perdido seu chão.
O garoto logo esqueceu do beijo entre o mocinho e a mocinha. Na sua cabeça somente borbulhava a decepção de confiar em um falso super-herói. Como ele, o filho, poderia ser protegido por alguém que chorava em um filme qualquer? O que seria quando um bandido invadisse sua casa? Ou se um monstro de três cabeças aparecesse? Ou até na mais simples situação do garoto cair e ralar o joelho? O que o pai faria em quaisquer desses casos? O filho somente poderia pensar que logo seu pai abriria o berreiro.
Em instantes, o seu maior super-herói foi vencido. O Super-Homem encontrou sua Criptonita. O filho agora não poderia entrar em uma briga dizendo “Vou chamar o meu pai”. O mais novo desiludido no mundo tinha absoluta certeza de que nunca mais manteria o mesmo orgulho de antes ao olhar para seu velho.
Mas o “nunca mais” terminou mais cedo. Três segundos depois aquela certeza se desfez. O garoto viu naquela tentativa paterna de disfarçar as fragilidades exatamente a mesma atitude dos seus heróis de quadrinhos em esconder sua identidade. Ele percebeu que aquilo não era um cisco, mas sim algo muito maior: lá estava a prova de que seu pai não falharia nunca, de que seu pai sempre precisava ser forte para o que desse e viesse. Seja um pequeno tombo ou um monstro de três cabeças. Ele, o garoto, enxergou com muito mais nitidez o enorme “S” estampado no peito do seu pai. E ele, o pai, enxergou o enorme orgulho nos olhos de seu filho.
Assim, em uma sala qualquer, de uma cidade qualquer, em frente a uma televisão qualquer, a identidade de um super-herói qualquer era bruscamente revelada. E uma saga bravamente heróica chegava ao fim. E um final feliz, digno de uma história em quadrinhos qualquer.

2 comentários:

Anônimo disse...

Putz Vitão, que bonito, cara! Parabens, o blog tá excelente!

Abraço!!

pavanato disse...

aoohh poeta!
gostei, cara!
vou ler sempre!

add seu link lá no meu blog, valeu?!

abs!