sábado, 21 de junho de 2008

Que pena...


Mais uma vez, Marina esperava o café na cama. Que pena que ele não veio. Ao contrário, sentia o cheiro do pãozinho na chapa feito pelo seu marido. Cheiro gostoso, mas fugaz. Fugacidade que significava que ele já havia comido e tão logo saíra para trabalhar.
Mais uma vez, Marina esperava o beijo de “até logo”. Que pena que ele não veio. Ao contrário, encontrou um bilhete assinado de seu marido dizendo que precisara sair com pressa e ligaria para avisar se viria para o almoço. A letra corrida e relaxada não era nem um pouco parecida com a das cartas de amor do começo do namoro.
Mais uma vez, Marina esperava a ligação. Que pena que ela não veio. Ao contrário, a manhã passou todinha em silêncio e o telefone não tocou se quer uma vez. A ausência do “trimmmm” era o sinal de que seu almoço seria um banquete de solidão. Mas quem sabe o marido estaria trabalhando no almoço para sair mais cedo.
Mais uma vez Marina esperava aquela surpresa. Que pena que ela não veio. As horas passavam devagar e o relógio se aproximava normalmente do fim do expediente do marido. Logo ele chegaria em casa cansado e, mesmo que sem maiores surpresas, ela teria companhia.
Mais uma vez Marina esperava pouco atraso. Que pena que ele não veio. No primeiro dia foi um chopp com os amigos, no segundo um jogo de futebol, no terceiro uma esticadinha no trabalho e nos outros o motivo nem importava mais.
Mais uma vez ele chega em casa cansado, liga a televisão, pega água na geladeira, tira os sapatos e a gravata apertados, afaga o cachorro e, por fim, procura Marina. Que pena que ele não acha. Ao contrário, a única coisa que encontra é o bilhete que ele havia deixado anteriormente. No verso, entre algumas frases, uma simboliza perfeitamente a situação: “...que pena que você não veio...”. Nestas seis palavras pode sentir na pele toda decepção de Marina. Ali, ele conhece o paradeiro da esposa. Em uma frase, percebe o que deveria ter percebido há muito tempo. Que pena que ele nunca poderá trazê-la de volta.

2 comentários:

Unknown disse...

Sorte da Marina que se livrou desse atraso que era o marido...azar o dele que ficou sozinho...rs. Esta se tornando comum isso neh? pena que mtas nao tem a coragem de Marina e ficam aguentando a situaçao.

Tati disse...

Bela tragédia!
Que bom ter a certeza de que o Vitor, sim, nunca se atrasaria por conta de um jogo de futebol, não é mesmo?
Adorei a crônica!