Toda cidade que se preze mantém pelo menos um “Calçadão” na sua área central. E é sempre grande, muito maior do que o seu sulfixo “ão” consegue representar. Aquele barulho de entra e sai nas inúmeras lojas parece ensurdecedor nos primeiros dezessete segundos. Depois, os ouvidos acostumam e o que acaba incomodando insuportavelmente é o silêncio – isso se ele fosse possível de ser alcançado.Enquanto as pessoas compram, vendem, negociam e barganham dentro dos comércios estabelecidos, outros personagens chamam a atenção da pequena Isabel, 12 anos, que tinha a “missão” de comprar um presente para sua mãe aniversariante. Seu pai acabara de deixá-la sozinha com centenas de recomendações e uma quantia “gorda” para expandir seu leque de opções na busca pelo presente.
Um calor de “rachar coco” na sombra. No sol então, sem comentários. Entre toda aquela multidão de transeuntes, um pequeno altar de mármore e uma caixa com alguns trocados. Sobre a pedra, um homem pintado de prata conservando a mesma posição o dia todo. No meio de toda a similaridade com uma estátua, podem-se ver as gotículas de suor que escorrem pelo seu rosto comprovando sua humanidade. Ao ganhar uma moeda, um gesto de agradecimento e a oportunidade de fazer o sangue circular e relaxar as articulações. Em poucos segundos, aquele homem de nome desconhecido está de volta à posição inicial. A paciência em troca de alguns trocados.
Uma pressa de dar enjôo ao mendigo deitado no banco vendo todo aquele “passa-passa”. Pessoas sem tempo para ouvir os versos doces daquele homem vestido com um terno desbotado e carregando um caderno velho em suas mãos. Entre os passos apertados, os gritos das buzinas e as incessantes negociações, ecoavam apenas as últimas palavras do poeta urbano, aquelas às quais ele reservava uma maior entonação. Quase despercebido, sua arte estava condenada a desaparecer entre a desilusão e a epifania de perceber o quão ignorado foi. A pouca recompensa era mais por pena do que por reconhecimento. As palavras em troca de alguns trocados.
Tênis, sapatos, sandálias, chinelos... Entre passos largos e curtos, um garoto com um caixote de madeira sobre seu ombro observa esse universo para oferecer seus serviços. Passa um sapato e rejeita sua graxa, outro e nova recusa e mais outro e mais outro. Cansado, ele vê pequenas sandálias rosa e por um minuto desvia seus olhos para a dona delas. Por dezessete segundos o mundo dele se equipara com o de Isabel. Ambos a mesma idade, mas com perspectivas tão diferentes. Então, o peso da diferença se põe sobre seu pescoço, ele abaixa a cabeça e entra de novo em seu universo de tênis, sapatos, sandálias, chinelos... A infância em troca de alguns trocados.
Anestesiada pela jornada dos ilustres desconhecidos, Isabel não realizou sua “missão”. O dia virou noite e seu pai logo chegou para buscá-la. Amanhã, ela voltará, assim como fazem a estátua viva, o poeta urbano e o engraxate... e muitos outros que voltam e voltam todos os dias em busca de um presente para suas vidas.
3 comentários:
muito boom vitor oshiro!
textos como esse mostram como você escolheu o curso certo.
e mesmo depois você jogando na minha cara, admiro muito seu talento. sério mesmo.
parabéns chataummm!!
xD
ow, inferno, fui comentar e deu errado hauahuahauhau
enfim
texto bonito, 01! :D
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